quinta-feira, abril 26, 2018

OS CEGOS E O ELEFANTE...

TEXTO I

RESPOSTA A UMA AMIGA indignada por eu não celebrar o 25 de Abril...

Eu compreendo o seu desabafo, o seu espanto de eu não festejar este dia...e entendo porque fala com tanto enlevo de um sonho - mas devo dizer-lhe que eu vivi tudo isso de que fala com tanta paixão. Paixão tive-a eu e muito anos antes desse dia que sonhei como toda a gente sonha, eu lutei e falei e vivi entre trabalhadores e estudantes e gente pobre e por isso disse poemas e cantei com o Zeca Afonso em palcos e assembleias proibidas e só por dizer o que pensava e tão jovem tive por isso e tão pouco afinal de contas de fugir a Pide e fui para Paris como o meu irmão foi antes para fugir a guerra...sei isso tudo de cor e salteado - vivi muitos sobressaltos e andei nas manifestações, vi cargas policiais...morri de medo etc. Eu sabia toda a dor e miséria deste povo, sabia e sofria a sorte das mulheres! Mas... depois, desse mesmo dia que foi só um sonho - sim, foi bonito, comoveu-me -, mas nesse dia já eu tinha outros sonhos bem mais altos...e embora fosse algo inesquecível eu sabia já que não foi o povo que venceu - sabia que não houve revolução nenhuma; apenas se mudou de ideologia ou a mascara ao Sistema, mudou-se o nome e regras do jogo - mas nada de essencial e verdadeiro e humano -nada de dignidade de um povo livre e com identidade - se consolidou.
Sim, é verdade que temos liberdade de falar e ler livros...que já ninguém lê e os factos é que se em cada esquina havia um PIDE... não foi de um dia para o outro que em cada esquina havia um amigo...a canção é bonita e a festa também pá...mas a realidade a nossa hoje, passados estes anos "Abril Sempre" é só uma ideia, como de deus...é igual à fé, é um sonho, porque a miséria, os crimes e a mentira, a corrupção é ainda maior - é mais ou menos a mesma pobreza e falta de cultura e assim de que serve a liberdade de um Povo vendido e traído e se não há consciência humana e individual e se somos escravos do dinheiro e da fama e da televisão e das telenovelas e do futebol que é quem mais ordena etc. E nunca houve tanto egoísmo e tanto ódio, tanta guerra...
Vou confessar-lhe...eu hoje chorei ao ver o sonho de um Pais cair...chorei por não poder festejar com a mesma infantilidade e inocência com que lutei um dia e acreditei que o mundo mudaria...mas hoje...sim, passados mais de 50 anos, o que vejo? Diga-me o que vê?
Sim, os cenários mudaram...os carros as casas a tecnologia, as roupas e as máscaras, as linguagens... mas já não há valores e ninguém quer saber de ninguém. Só conta mesmo o dinheiro - olhe a sua volta e veja com olhos de ver em vez de continuar a sonhar...

rlp


Texto II
Ontem não comemorei o "25 de Abril Sempre"...?
Chorei de pena...
Sim, chorei por ver que a liberdade de uns é a prisão de outros, que a riqueza de uns é a pobreza de outros. E que mudam os rostos e as vontades, mas tudo continua na mesma... para quem pensa e espera por Paz verdadeira e Amor sem bandeiras, sem ódios, competição, sem armas químicas, sem mentiras, sem crimes, nem guerras...
Onde a diferença entre o fascismo de ontem e o socialismo de hoje?
(Não me vão atirar pedras os sonhadores?)
É isto "liberdade, igualdade, fraternidade"?
Não, não vejo em cada rosto a igualdade nem um amigo...
Vejo que somos todos diferentes de acordo com o dinheiro que temos, vejo os doutores e engenheiros e os banqueiros...vejo o mesmo desprezo pelos que nada tem ou pensam diferente...
O que eu vejo é a liberdade da corrupção, da alienação, da perda de identidade de um povo, do abuso, vejo o Pais endividado, vendido ao estrangeiro, vejo os assassínios diários de mulheres, veja a justiça julgar e roubar e enganar e os mesmos ladrões continuando donos de tudo etc., e vejo que os "políticos" só fazem intrigas entre si e lutam apenas por rendimentos e reformas em detrimento do povo que "desgovernam"...e mantem na mesma miséria...
Vejo...deles... Consciência nenhuma, muito egoísmo, vaidades, egos a brilhar na ribalta, muitos beijinhos e poemas mas pouca verdade...vejo fantasias e ilusões muitos oportunismos por todo o lado...
Mas e a Festa pá, a Festa para os turistas e os revolucionários de cravos?
Ah, desculpem-me os sonhadores e os jovens e os velhos que decoraram o folclore de abril como decoraram a tabuada...

Sim, eu chorei apenas por ver que a "liberdade" sem o RESPEITO E A DIGNIDADE DE UM POVO, sem Democracia de que e a quem serve?

rlp


HÁ 4 ANOS

OS CEGOS QUE QUERIAM VER O ELEFANTE...

 Há 4 anos vi e ouvi 4 mulheres de diferentes idades e gerações a falar sobre o 25 de Abril...eram elas a escritora Hélia Correia, a psicóloga Joana Amaral, a Juíza (?) Maria José Morgado e uma cientista de nome Maria...Foi muito curioso ver e ouvir como cada uma delas se situava e discutia o acontecimento exactamente e apenas de acordo com a sua visão...Claro cada uma tinha a sua...e todas eram unanimes em que a mulher já era livre e não havia nenhuma diferença entre ela e o Homem...
Para uma o 25 de abril era como um Portal...que se abriu assim de repente e tudo mudou como na sua ficção...para outra a ciência é que o grande motor do conhecimento e avanço e esperança para Portugal e para a outra só viu o esbanjamento e a corrupção a imunidade dos políticos - a mais nova, que não viveu nada do que foi antes de Abril, era só a teoria da psicologia e da ideologia bem pensante da esquerda livre...
Isto fez-me lembrar a história indiana dos 4 cegos que queriam "ver" um elefante...quando cada um tocou uma parte bem distinta do elefante como seja, a tromba, a barriga, a orelha ou a cauda...a discussão a seguir era toda baseada na experiência de cada um, sem dúvida, mas ninguém se entendia, nem nunca se iriam entender...Assim é a nossa realidade e o conhecimento dela...
Somos todos cegos às apalpadelas...


rlp

TODO O SER HUMANO ESTÁ SÓ



A SOLIDÃO CONDIÇÃO DO SER...

"A solidão é a condição do ser humano no mundo, diz Heidegger.

Todo o ser humano está só. Esta é a grande questão da existência, mas não significa uma coisa negativa, nem que precise de uma solução definitiva. Ou seja, a solução não é acabar com a solidão, não é deixar de sentir angústia, suprimindo este sentimento. A solução não é encontrar uma pessoa para preencher o vazio existencial, não é encontrar um hobby ou uma actividade. A solução não é a de matar-se a trabalhar e concentrar-se nisso para não se sentir sozinho. Também não é encontrar uma estratégia para fintar a solidão. A solução é aceitar que se está só no mundo. Simplesmente isso. E sabendo-se só no mundo, viver a própria vida, respeitar a própria vontade, expressar os próprios sentimentos, buscar a realização dos próprios desejos. Quando se faz isso, a vida enche-se de significado, de um brilho especial."

"O objectivo não é fingir que a solidão não existe, não é buscar a companhia dos outros, porque mesmo junto com os outros estamos e seremos sempre solitários. O outro é muito importante para partilhar, trocar. O outro é muito importante para a convivência, mas não para preencher a vida, não para dar sentido e significado a uma outra existência. A presença do outro ajuda-nos, partilhando, mostrando a parte dele, dando aquilo que não temos e recebendo aquilo que temos para dar, efectivando a troca. Mas o outro não é o elemento fundamental para saciar a angústia ou para minimizar a condição da solidão."

"Cada um de nós nasceu só, vive só e vai morrer só."

"A experiência de cada um de nós é única. O nascimento é uma experiência única, pois ninguém nasce pelo outro. Da mesma forma que a morte é uma experiência única, pois ninguém morre pelo outro. E a vida inteira, cada momento, cada segundo da existência, é uma experiência única pois ninguém vive pelo outro."


"Solidão: a Condição do Ser"
Jadir Lessa

quarta-feira, abril 25, 2018

O 25 DE ABRIL TROUXE O QUÊ ÀS MULHERES?


ABRIL 
NADA RESOLVEU O PROBLEMA DA IDENTIDADE DA MULHER, porque a revolução da mulher é outra, começa nela mesma, é o problema da sua verdadeira identidade!


“A revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada.(...)Tudo terá de ser novo. E ("PORQUE") o problema da mulher no meio disto, não é o de perder ou ganhar, mas é o da sua identidade.”*

 **in Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, 1972


"As Mulheres que lêem são perigosíssimas, pois claro; e então as que escrevem, um verdadeiro risco para a Civilização... Algumas até se disfarçaram de homens para escrever, lembram-se?
 
Lá se vai a IMBECILLITAS SEXUS, categoria do Direito Romano que passou para o Direito Comum (EUROPA!!!) e entronca oh so well na definição Aristotélica da MULHER como Homem IMPERFEITO ('De Generatione Animalium'). Na nossa tradição 'ocidental', esta concepção vai direitinha até Freud, passando por tantos iluminados juristas, teólogos e tutti quanti.
Tantos imbecis arrogantes, Deus do Céu. E tantos sábios ignorantes aconselhando o povo in all matters matrimonal, como Francisco Manuel de Melo et al.
Por isso, como diria Virginia Woolf, é muito difícil 'not to write in a rage', porque, como diz a Doutora TPB (eu) na sua tese de doutoramento, antes de nós há dois mil anos de insultos, ignorância, menosprezo e sheer stupidity."


('Mulheres, Direito e Crime ou a Perplexidade de Cassandra'. Lx, AAFDL, 1990-1993).


AGORA QUE SE FALA TANTO EM  "PARIDADE"...
É PRECISO PENSAR O QUE ISSO SIGNIFICA DE FACTO ...


"Porque, na realidade, o que é a igualdade de género?
O que significa a participação igualitária das mulheres nas estruturas sociais, econômicas e políticas?
É, realmente, mudar a essência do mundo em que vivemos?
Para responder a isso, precisamos apenas observar que nos rodeia.
Note, por exemplo, as mulheres que entram no mundo da política.
Elas são menos ambiciosas do que um homem?
Estamos presenciando uma profunda transformação globalmente à medida que as mulheres incorporam cargos de responsabilidade? A resposta para todas essas perguntas é tão triste quanto óbvia."


in GAZZETTA DEL APOCALIPSIS"

segunda-feira, abril 23, 2018

...porque...as mulheres não existem



"Eu detesto o ponto de vista masculinista. Estou entediada do seu heroísmo, virtude e honra. Eu acho que o melhor que esses homens podem fazer é não falar mais deles mesmos."

Os Homens têm aclamado o ponto de vista humano; eles são os seus autores; eles são os seus possuidores. Os Homens são humanistas, humanos, de humanismo. Os Homens são estupradores, violentadores, espoliadores, assassinos; esses mesmos homens são profetas religiosos, poetas, heróis, figuras de romance, aventura, performances, figuras enobrecidas pela tragédia e pelo fracasso.
Os Homens vem aclamando a Terra, clamando por 'Ela'. Os Homens arruinaram-na a 'Ela'. Os Homens têm aeronaves, armas, bombas, gases venenosos, nous gases, belicosidade tão perversa e mortífera que eles desafiam qualquer imaginação humana. Os Homens batalham entre si e Ela ; as mulheres batalham para serem admitidas na categoria 'humano' na imaginação e na realidade. Os Homens batalham para manter a categoria 'humano' longínqua, circunscrita pelos seus próprios valores e atividades; as mulheres batalham para mudar o significado que os homens deram à palavra, para transformar esse significado difundindo-o a ele na experiência feminina."

Andrea Dworkin - pornography: men possessing women

AS MULHERES NÃO SE AMAM...porque não existem...

Enquanto as mulheres não se amarem a si mesmas, vai ser impossível respeitar compreender e amar outra mulher, seja a mãe a filha irmã ou a amiga. Ela terá sempre o foco em deus pai, no filho e no homem - foi exactamente isto que a sociedade patriarcal (religiões e ideologias, incluindo xamanismo e outras tradições) fomentaram e alimentaram durante séculos para poder dividir a mulher - uma força em si indomável quando unificada - e assim manter o controlo absoluto do seu ser, do seu útero e do seu sexo, mistério que nunca o homem conseguiu abarcar e por isso o teme...
A Deusa foi suprimida da Terra Mãe para que o homem detivesse a hegemonia do Planeta através da força e guerra.
A mulher submeteu-se a agora está a ser muito difícil despertar para uma consciência de si ...

rlp

ELA VINHA...



A ROSA


" O sinal da Terra está «crucificado» - da Terra, que é a cor e a beleza, e que com seus próprios elementos se crucificou, pois os braços da Cruz do Calvário são extensões dos da Cruz Cósmica que está contida no símbolo da Terra. E assim se veio a conceber esse símbolo de cinco elementos, ou pétalas, como sendo a Rosa, por ser esta flor o sinal externo da Beleza, e ainda o do Silêncio que está no centro da Beleza, e por ser a flor que contém em si os elementos do martírio ou sofrimento, que são os espinhos - elemento que não há em nenhuma outra flor das que possam simbolizar a Beleza. E por isso Àquele que foi a Rosa Crucificada, e em Si crucificou a Rosa, se impôs, em seu martírio, uma Coroa de Espinhos. E por isto se entende que esse elemento de cinco partes, que está crucificado e quebrado, é uma Rosa; e o símbolo cristão completo e final é o símbolo da Rosa-Cruz."
Fernando Pessoa



A FORÇA DO MUNDO


"E só agora vejo que a rosa era a sua anunciadora, a que vinha antes, a ocultas, consigo ligada.

Ela vinha este e aquele dia, aparecendo-me em formas diversas, no sonho (que dizia: o mundo é construído como uma rosa – camadas e camadas que é preciso atravessar para chegar ao seu centro, que será o centro de dentro e o de fora); na praça romana surgiu como uma rosa verdadeira, atravessada pétala a pétala, até ao fundo; ou então reduzida ao seu único centro, coração de tudo, o fim, a ponte de passagem entre terra e céu.
E então, só depois, nos anos seguintes, veio a Virgem, seu ser enfim revelado, aquele que antes tinha aparecido em símbolo, em imagem viva. Agora ela vem, três vezes, em três vindas sempre diversas e novas: do centro da Terra, brotando das suas entranhas, por um momento abertas, em altas e espiraladas chamas de fogo branco; aparecida súbita no meu quarto, ao meu lado, rodeada o meu ser que ele mesmo rodeava; de noite, em assunção no prado verde das árvores, em torres rendadas subindo para o céu: e eu nelas subindo.
Mas primeiro fui a sua flor, como sua face verdadeira e oculta. Face que a revelava e anunciava, em imagem transporta. Para mais tarde ser decifrada."


(17-VI-1967)

DALILA PEREIRA DA COSTA

SEM DESEJO...


 

"La sexualidad y el funcionamiento de la dominación para entender el origen social del malestar individual.

La rebelión de Edipo, II parte
(edición digital 2010)


El libro está agotado y por eso habíamos preparado esta edición, pero al final y dadas las circunstancias, no se va a imprimir en papel y sólo quedará aquí colgado en versión digital. Texto de la contraportada:


Hay dos conceptos para entender la sexualidad: la pulsión del deseo y la capacidad orgásmica del cuerpo humano. Sin deseo, la práctica del sexo no es sexualidad, sino como decía Juan Merelo Barberá, tecnosexología. Sin deseo, los cuerpos no pueden desarrollar su genuina capacidad orgásmica, necesaria para su autorregulación y para su funcionamiento normal. El deseo y el desarrollo de la capacidad orgásmica se producen espontáneamente, no necesitan 'educación'; sólo necesitan que se eliminen las prohibiciones, el Tabú del Sexo. La tecnosexología sí es objeto de educación porque es la practica del sexo sin deseo, o con el deseo inducido con técnicas artificiales; es la practica del sexo de los cuerpos acorazados, educados en la inhibición más o menos sistemática e inconsciente del deseo; las mujeres, en la inhibición del latido del útero, en la desconexión entre la conciencia y el útero.

En el estado de inhibición, las emociones se desconectan de las pulsiones corporales y se convierten en emociones erráticas que producen ansiedad. El conductismo pretende educarnos y 'alfabetizarnos' emocionalmente, sin cuestionar el estado de represión del deseo y el estancamiento de la capacidad orgásmica desde la etapa primal. Pero el 'analfabetismo emocional' no es innato, es precisamente el resultado directo del estado de represión en el que nos socializamos, y al permanente esfuerzo para adaptarnos a la norma de la institución del matrimonio o de la llamada 'pareja de hecho'.

Las emociones brotan del cuerpo para apoyar la implementación de las pulsiones (ya sean eróticas y sexuales, o de defensa, como la ira y la cólera…). Son tan sabias como las pulsiones, y su objeto es facilitar la autorregulación del cuerpo. En una sociedad de sexualidad espontánea, percibiríamos nítidamente el sentido de cada emoción en la autorregulación corporal, así como su conexión con su pulsión correspondiente. Las emociones serían el medio más importante para percibir lo que pasa en cada rincón de los cuerpos autorregulados.

En las sociedades patriarcales del Tabú del Sexo, el acorazamiento produce la pérdida de la transparencia y la desconexión entre la conciencia y las pulsiones, entre la epidermis y las vísceras… La desconexión es la otra cara de la moneda del acorazamiento. La desconexión juega un papel importantísimo para impedir que el deseo recorra el campo social (Deleuze y Guattari). Los seres humanos, además de producir deseos, estamos hechos para percibir y acoger el deseo del otro o de la otra; y para que cuando el deseo del otro o de la otra nos alcance, induzca la producción del nuestro.

La tecnosexología que hace funcionar a las parejas que ya no se desean, y la educación emocional que engaña a las personas sobre su desorden emocional, deben ser denunciadas. El matrimonio o la pareja es un pacto o convenio social que sólo se corresponde con el deseo corporal durante un tiempo limitado. Mientras que no se separe la sexualidad de la institución, la sexualidad seguirá estando corrompida.

Este es el origen social del malestar individual: el Tabú del Sexo asociado a la dominación y a los estados de sumisión, implementados de diversas maneras a lo largo de unos cuatro milenios de dominación patriarcal.

La corrupción de la sexualidad ha sido y es imprescindible para el establecimiento de las relaciones de dominación en general, y entre los sexos en particular: porque la verdadera sexualidad desarrollaría relaciones armónicas entre los sexos y entre las generaciones; porque el amor verdadero es complaciente y se opone a la dominación: nadie podría reprimir o infligir sufrimiento alguno al ser amado; de hecho, las relaciones entre amantes son relaciones de tú a tú (Amparo Moreno Sardá), nunca relaciones jerarquizadas de Autoridad.

Casilda Rodrigañez Bustos

terça-feira, abril 17, 2018

Sendo assim para quê publicar?



CENSURA...
E DEPOIS (DELE)...NADA...

"Não é que não publique porque não quero: não publico porque não posso. Não se entendam estas palavras como dirigidas contra a Comissão de Censura; ninguém tem menos razão de queixa do que eu dessa Comissão. A Censura obedece, porém, a directrizes que lhe são superiormente impostas; e todos nós sabemos quais são, mais ou menos, essas directrizes.

Ora sucede que a maioria das coisas que eu pudesse escrever não poderia ser passada pela Censura. Posso não poder coibir o impulso de escrevê-las; domino facilmente, porque não o tenho, o impulso de as publicar nem vou importunar os Censores com matéria cuja publicação eles teriam forçosamente que proibir.


Sendo assim para quê publicar? Privado de poder publicar o que deveras interessará o público, que empenho tenho eu em levar a um jornal qualquer o que, por ilegível, lhe não serve, ou que (...)

Posso, é certo, dissertar livremente (e, ainda assim, só até certo ponto e em certos meios) sobre a filosofia de Kant (....)"


Fernando Pessoa

Nota a margem

Pior do que a censura diria é a mentalidade de uma época em que já ninguém pensa ou lê ou escreve cosias sérias...
rlp

quarta-feira, abril 11, 2018

VERDADE E SINCERIDADE..


 "...a sinceridade exige conhecimento de si e o conhecimento de si é fruto da idade... Como é que uma mulher tão jovem poderia ser sincera ? Ela não poderia ser sincera porque ela não se conhece a si mesma."- M. Kundera


COGITANDO...

Estava a pensar como é difícil lidar com tantas formas de sentir e pensar...e as diferenças, sejam de idade sejam de carácter  ou cultura e como as relações humanas são complexas e implicam tanto cuidado na abordagem dessas diferenças, quando com elas somos confrontadas...

Pessoalmente nem sempre consigo ser correcta...ou distanciar-me de uma reacção instintiva que aparece quase sempre como defesa do que eu penso ser a verdade...e que gera o ataque de uma diferente opinião. Mas como ser sincera? E ai como diz Kundera  "...a sinceridade exige conhecimento de si e o conhecimento de si é fruto da idade..." e isso portanto limita qualquer pessoa a se entender e portanto a compreender as outras...

Levamos anos a aprender a respeitar todas essas diferenças, levamos anos a aprender a recuar e a observar e a aceitar o/a outro/a na sua visão das coisas, independentemente da nossa ...e raramente conseguimos ser imparciais na nossa análise a não ser quando já percebemos - o que acontece muito tarde na vida - que o essencial de tudo o que vivemos e sentimos nada tem a ver com ideias nem opiniões nossas ou de terceiros (sejam eles filósofos teólogos ou psiquiatras etc) e que a vida é aquilo que cada ser vive e sente e não a afirmação da verdade e da justiça como padrões que correspondem apenas a conceitos e ideias temporais feitas a partir de filosofias e religiões e dogmas, e saber que raramente tudo isso nada tem a ver com a experiência de vida de cada ser...
Outra cosia grave que acontece nas realções é as pessoas baseadas na sua experiência presumir que alguém quer dizer isto ou aquilo quando não sabe ao certo o que a outra pessoa sabe e sente...e ai cometem-se os erros mais graves...até de destruição de alguém que não conhecemos...
Mas mais grave ainda é que desrespeitamos a experiência vivida pelo ser humano para dar lugar ao conhecimento fictício que tomamos por garantido e certo...por isso anulamos os velhos e as mulheres na sua experiência de vida autêntica e seguimos Mestres e "avatares"...
Isto parece que invalida a necessidade de saber e conhecer as leis do mundo e do universo, da ciência e da história, ou as leis diria da vida em si e do ser humano per se - mas do ser humano realmente quem é que sabe as leis da sua natureza interna que não são só cérebro e vísceras, esqueleto e órgãos, mas coração com emoções e sentimentos, sonhos e alma que não se pensa?

Quem sabe quem é quem?
Quem sabe ao certo quem é?
O famoso EU SOU...ou QUEM SOU EU?
De onde vim e o que estou cá a fazer?
Sim, quem sabe ao certo responder a tantas destas questões - "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo" de Platão...
Quem sou eu mesma? Sim, onde está o EU, mim, o "eu sou", o Eu dito superior...sem ser apenas este eu que nasce e morre?


Se ninguém sabe que alma tem...como diz o poeta que cuidado devemos ter uns perante os outros tendo em conta toda estas dificuldades?


Não, "Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem."


F. Pessoa


rlp

O EGO...



"A experiência do Si-mesmo é sempre uma derrota para o ego"
 
C. Jung


"O ego não pode ser um vaso para receber o influxo da graça enquanto não tiver esvaziado o seu próprio conteúdo inflado. E este esvaziamento só ocorre através da experiência de alienação" *


A "alienação" do ego não significa a alienação do SER CONSCIENTE de si, como em geral se confunde. O ego corresponde à partida à nossa Persona (mascara) e o Ser em si, à essência ou Alma, embora as designações de ambas as partes do nosso ser, o ser físico e o ser espiritual, se confundam por vezes em linguagem corrente. Ego ou persona é ainda o suporte físico e mental do ser em evolução. Assim, "Se a vida da pessoa é governada pelo sentido de uma tarefa divina, isso significa, psicologicamente, que o ego tem de estar subordinado ao SI-mesmo e foi libertado das preocupações que têm o ego como centro."*


* in "EGO E ARQUÉTIPO" de Edward F.Edinger

O CORAÇÃO EM CHAMAS



"O Coração em chamas, ou o fogo do coração é a metáfora, a forma de que se revestiu nas suas aparências históricas. Mas na terminologia popular, nessa vida que o "coração" levou em seus territórios, o coração não é fogo, mas parece apresentar-se em símbolos espaciais: é como um espaço que dentro da pessoa se abre para acolher certas realidades. Lugar onde se albergam os sentimentos indecifráveis, que saltam por cima dos juízes e daquilo que pode ser explicado."
(...)

in A METÁFORA DO CORAÇÃO - MARIA ZAMBRANO


" A escolha abre ou fecha a porta do Templo, lá onde a Luz sem sombra revela a origem do mundo binário, obra das antinomias.

Aquele que poder franquear a porta reconhecerá o que em si é material, feminino, passivo e aquático é Lua, e o que em si é activo, quente, ardente e sem forma é o Sol. Ele saberá que no mundo da Dualidade, ele projecta no Céu esta Lua e este Sol; ele esqueceu que (estes princípios) estavam nele, para não os ver mais senão fora de si mesmo. É este lugar – ou “momentos” – a que chamamos de “descida das luzes”, quando a inteligência vem ao coração."


in Le Miracle Egypcien - Schwaller de Lubicz


O coração que escuta

Emprestando o seu coração que em si escuta os lamentos dos que mais sofrem e de todos os seres de verdade, os destituídos de mentiras, de coração equitativo, o ser verdadeiro, aquele cujo coração sabe e conhece os pensamentos pelo coração sem que nada saia dos lábios dos que sofrem pois pelo escutar do seu coração é que lhe é dado o entendimento mais puro.


in Le Miracle Egypcien - Schwaller de Lubicz