terça-feira, setembro 19, 2017

Arundhati Roy:

 «Na Índia, é mais seguro ser uma vaca do que ser uma mulher»

Arundhati Roy               
 
Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

É uma mulher enorme, de corpo franzino, voz baixa, olhar doce e sorriso sereno. Há vinte anos escreveu O Deus das Pequenas Coisas, romance de estreia que lhe valeu o Booker Prize (vamos esquecer o Man incluído no nome do prémio) e fez dela uma escritora conhecida em todo o mundo, com milhões de livros vendidos e traduzidos em 42 línguas.
Elevada a rosto da nova Índia, recusou o rótulo que a tornaria cúmplice de uma ideia de sociedade e de país que deplora e tornou-se ativista pelos direitos humanos, contra os ensaios nucleares e a ocupação de Caxemira, contra o sistema de castas e a forma como as mulheres são tratadas. Por isso, sofreu ameaças e perseguições. Teve (tem) medo, mas nem este a deteve. Parece que é isso a coragem.
Os vinte anos que separam os dois livros deram-lhe o mundo que construiu no seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Suprema, lançado este ano e que a colocou de novo entre os candidatos ao Booker Prize, a mais alta distinção da literatura em língua inglesa.
Diz que não sabe o que é um país, mas nunca conseguiu viver noutro senão aquele em que nasceu.

Entre O Deus das Pequenas Coisas e O Ministério da Felicidade Suprema percebe-se uma visão maior do mundo. Foi o que fez nos 20 anos de intervalo entre os dois livros: ganhar mundo?
Sim. Depois de escrever O Deus das Pequenas Coisas, viajei, escrevi ensaios de não-ficção, envolvi-me no que estava a passar-se na Índia. É um país que mudou de forma muito dramática nestas duas décadas.
O primeiro livro ganhou o Booker Prize, foi um sucesso internacional e a Arundhati partiu para a luta. Escolheu o caminho mais difícil.
Não me sentia confortável com o facto de ser uma escritora de sucesso, conhecida em todo o mundo, mas que vivia num lugar onde as pessoas não sabiam ler, não tinham o que comer. Qual deveria ser o meu papel? Era essa a questão que colocava a mim própria. Decidi dedicar a minha energia a pensar sobre esse lugar e, através disso, a pensar sobre o mundo.
 (...)
Esteve envolvida em diversas causas. O que a revolta mais?
Pouco depois de O Deus das Pequenas Coisas ter sido publicado, em 1997, e ter ganho o Booker Prize, foi eleito na Índia um governo de extrema-direita fundamentalista hindu. Foram feitos uma série de ensaios nucleares, celebrados não só pela classe política, mas também pelos media, por artistas e escritores, de uma forma que considerei muito feia. Senti que o discurso público tinha mudado. Nessa altura, eu era apresentada como a cara desta nova Índia e considerei isso muito perturbador porque não concordava com aquele tipo de posição política.
Quis demarcar-se?
Sim. Por isso, escrevi um ensaio, chamado O Fim da Imaginação, que desencadeou muita raiva contra mim, da parte das mesmas pessoas que antes me celebravam. Comecei a viajar e a escrever e a verdade e a perceber que o que me revolta é a ideia de uma sociedade que glorifica a injustiça. Não há nenhuma sociedade completamente justa, mas pelo menos tenta-se alcançar a justiça. Aqui (na Índia), a começar pelo sistema de castas, celebra-se a injustiça, faz-se desta uma coisa sagrada.

«O sistema de castas é o motor da Índia moderna»

Como se explica que até hoje esse sistema não tenha sido abolido?
Arundhati Roy
O sistema é questionado. Um dos grandes intelectuais na Índia, um homem chamado Dr. Ambedkar da casta dalit (intocáveis) foi um dos grandes opositores de Gandhi. Gandhi é na verdade uma pessoa cujas visões deviam ser olhadas com mais atenção e seriedade porque há muita falsa propaganda sobre quem era e o que defendia, sobretudo acerca do sistema de castas e as mulheres. Mas não só ele. Quando escrevi O Deus das Pequenas Coisas, a esquerda em Kerala ficou muito zangada com o livro, porque este questionava o facto de os partidos comunistas não fazerem nada para acabar com as castas. A questão é que os grandes intelectuais, escritores e artistas na Índia, mesmo os de esquerda, não olham para isso, agem como se o problema não existisse (é como escrever sobre o período do apartheid na África do Sul e esquecer que existiu apartheid), quando na verdade o sistema de castas é o motor da Índia moderna.
O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. mas está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga.
Nesses vinte anos viu a morte e a violência de perto?
Não presenciei, mas conheci muita gente que… Quando estive na floresta, conheci gente como a camarada Revathy, [personagem de O Ministério da Felicidade Suprema], mãe verdadeira da Menina Jebben, a segunda, que foi violada por seis homens e torturada e mais tarde morta. O tipo e a quantidade de violência que existe na Índia é completamente impensável. E está tudo encoberto por esta capa da democracia-bollywood-críquete-gandhi-yoga. Mas em Caxemira foram mortas cerca de 60 mil pessoas, muitos milhares foram torturadas, há 10 mil desaparecidos. E as pessoas não sabem de nada. É a mais densa ocupação militar no mundo.
E sente que tem que denunciar isso?
Não foi esse o meu principal objetivo com este livro. Se quisesse denunciar, teria escrito um ensaio, mas precisava de perceber. O mundo todo está envolvido em coisas destas…
A Índia de O Ministério da Felicidade Suprema é também um espelho do mundo?
Sim, é um microcosmos do mundo e da evolução da civilização. A Índia fez testes nucleares, abriu os seus mercados, começou a chamar a si própria de superpotência. Outras superpotências têm colónias, a Índia não tem, por isso coloniza-se a si própria. É também sobre a história do colonialismo, este livro. Mas não é só sobre opressores e oprimidos, é sobretudo acerca de como essa opressão funciona, como é que os oprimidos a vivem e a veem, como é que se vive isso, como é o ar que se respira, como é a atmosfera.
O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este horror venha à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
Grande parte parte da ação deste seu livro passa-se num cemitério, onde vivem as suas personagens. Disse numa entrevista que vivemos todos num cemitério. Porquê?
Quando falei nisso, estava a pensar nas alterações climáticas, no facto de estarmos a viver num planeta moribundo e não reconhecermos isso. E isso não vai mudar a não ser que consigamos construir uma casa de hóspedes, como fez Anjum, e consigamos pensar de forma diferente. O que vai acontecer a este planeta se continuarmos a viver assim? Quando estou otimista penso que é bom que todo este absoluto horror e esta estupidez venham à superfície, para que todos vejam e reajam. Quando estou pessimista, penso que antes de reagirmos o mundo já se afundou.
(...)
Quando escreve, pensa se deve ou não escrever. Tem medo?
Tenho muitos medos. Quando estava a escrever O Ministério da Felicidade Suprema disse para mim própria: escreve-o como queres e depois guarda-o numa gaveta, mas depois de escrito o ego de escritora não permite que se mantenha guardado numa gaveta. Mas, até agora, tem sido tranquilo. Não tem havido problemas.
 (...)
A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro.
A forma como as mulheres são tratadas também. Considera-se feminista?
Claro. A Índia é um país que vive em vários séculos simultaneamente. Estamos no século XXI e no século IX e por vezes em cinco minutos pode passar-se de um para outro. Pode ter uma mulher como eu, que é completamente independente, que diz o que quer e que vive como quer – eu sou talvez das mulheres mais livres em todo o mundo e tenho um lugar na Índia – mas também tem mulheres a matar os bebés do sexo feminino quando nascem e a destruir os fetos quando sabem que são meninas e a alimentar as filhas menos do que alimentam os filhos, tem mulheres que são oprimidas das mais abjetas formas e isto acontece tudo na mesma sociedade.
E porque é que acontece? Tem a ver com a condição sócioeconómica?
O condicionamento cultural é determinante. Todo o mundo tem conhecimento das violações e das manifestações contra as violações. Mas, mais uma vez, é muito complicado porque a violação foi (tem sido) tradicionalmente usada como arma feudal. Um homem de uma casta superior pode violar uma mulher dalit, tirá-la de casa, fazer o que quiser com ela (o exército em Caxemira também a usa como arma), mas há agora também uma raiva contra as mulheres modernas, que percebem que existe outra maneira de viver e se recusam a viver de acordo com as regras tradicionais e também ela é brutalizada. A mulher é brutalizada por ser tradicional e brutalizada por ser moderna e por tentar mudar as regras e recusar esse controlo hegemónico dos homens. Hoje, na Índia, é mais seguro ser vaca do que ser mulher porque as vacas são protegidas e as mulheres são atacadas.

Arundhaty Roy
Apesar disso, e de ter sido acusada de anti nacionalista, escolheu viver sempre no seu país.
Porque não o vejo como um país, mas como um lugar onde vivo e onde estão as pessoas que conheço e que amo. Continuo a perguntar: o que é um país? Até há 70 anos Índia, Paquistão e Bangladesh eram um país, agora apontam mísseis uns aos outros. Na verdade, mesmo nessa altura não éramos um país. Os ingleses desenharam um mapa e havia 500 reinos separados dentro dele. A Partição criou violência, mas a assimilação também. Caxemira tem a ver com isso. O que está a passar-se no norte da Índia é isso, assimilação forçada. Por isso, o que é um país? Não percebo, não consigo ficar entusiasmada. Percebo do ponto de vista administrativo, mas não do ponto de vista da emoção, do país como algo sagrado, que pode levar mesmo à morte de quem falar contra ele.
Porque vive lá, então? Não terá, no fundo, a ver com uma ligação emocional ao seu lugar?
Vivo lá como uma árvore, se tiver que ser transplantada serei, as minhas folhas vão cair, envolverá trauma, mas talvez voltem a crescer.
O que teme mais?
Neste momento, que todos os dias, no sítio onde vivo, esteja a ser injetado veneno no sangue das pessoas comuns e para o qual não há um antídoto simples. Estão a criar-se as condições atmosféricas para algo terrível. E por causa desse horrível nacionalismo cultural e religioso, que está a dominar a sociedade indiana, milhões de pessoas estão ser empurradas para a destituição absoluta de tudo. Caminhamos para uma situação assustadora.
A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
Quem são os que estão em situação mais frágil?
Os muçulmanos, que estão a ser destituídos de todos os direitos, os indígenas que estão a ser expulsos das suas terras por causa da exploração mineira, as mulheres, que são as mais frágeis entre os frágeis, os dalit que levam milhares de anos de opressão. A situação que se vive na Índia é um manifesto do ódio com subcamadas e subcamadas e subcamadas, sobre quem deve ser odiado e quanto.
A religião é a raiz destes males?
Não é só a religião. É sobretudo o impulso hegemónico. Por isso é que o santo de O Ministério da Felicidade Suprema – Hazrat Sarmad Shaheed – é um santo que resistiu a todas as hegemonias. O judeu arménio homossexual que chegou a Deli, tornou-se islâmico, cortaram-lhe a cabeça e mesmo assim continuou a dizer poesia. Resistiu a todas as formas de hegemonia.
Ganhou o Booker Prize há 20 anos. O que significou na altura e o que significaria voltar a ganhá-lo?
Deu-me muita proteção. A visibilidade funciona em dois sentidos, é-se mais atacado, mas também se está mais protegido. Não era só uma pessoa anónima a quem podiam fazer o que quisessem e isso foi importante. E o facto de o livro ter ganho o Booker Prize deu-me independência financeira, o que também é bom – não veio de uma herança, veio do meu trabalho e isso significa muito.
E se o ganhar novamente?
Fico contente.
Quanto tempo teremos que esperar por um novo livro?
Não sei, não sei.

sábado, setembro 16, 2017

SER MULHER

O QUE PENSAM OS FILÓSOFOS DAS MULHERES

 “Ser-se mulher é algo de tão peculiar, de tão misto, de tão complexo, que nenhum predicado pode por si só exprimi-lo, e os muitos predicados, caso os quiséssemos utilizar, contradir-se-iam mutuamente de tal maneira que só uma mulher seria capaz de suportar tal coisa; aliás, pior ainda, seria capaz de encontrar prazer nisso.”...
  SÖREN KIERKEGAARD (1813-1855)



Por  causa destas e de outras considerações sobre as mulheres eu acho  que nenhum homem por mais erudito e culto ou bem intencionado que seja pode ou deve manifestar-se - ensinar o que quer que seja - sobre o que é a Mulher e a sua natureza...embora possam existir homens sábios que sentem e percebem a mulher.

Quanto a mim, nenhum homem deveria ser autorizado legalmente...a falar daquilo que não é nem conhece por experiência própria. Dai eu considerar  que é perniciosa toda a abordagem que o homem faz teoricamente da mulher pela simples razão de que não ele não nasceu mulher  e projecta toda a carga secular subjectiva/objectiva,  psíquica e religiosa que traz consigo e viveu como macho  dentro do Sistema e que o afecta acerca da mãe e da mulher tal como a sua ideia  do Pecado ou da sua leitura da Génese.

Há séculos que o Olhar do Homem sobre a condição e o saber da mulher é expandido de forma alienante para a própria mulher não só por a mitificar, seja inferiorizando-a na sociedade e a elevar aos céus e no altar, seja por a condenar aos infernos por ser pecadora promiscua ou infiel.
Não dou crédito a nenhum homem que se pronuncie seja a que nível for sobre uma Mulher. Sejam eles místicos sejam teólogos sejam os mais simples e honestos.
O homem, qualquer homem  tem - para não dizer todos - que aprender sobre e com a Mulher  mas não pode nem deve em consciência e se for honesto propor-se falar para as mulheres sobre elas  em circunstância alguma. É tempo de as mulheres falarem de si. Não ouvir os homens! Não seguir mestres nem guias nem facilitadores. Na verdade eles estão tão habituados a viver à conta das mulheres que não resistem à manipulação sexual e religiosa e não conseguem perder as fieis seguidoras que são as mulheres em todos os sectores do conhecimento "espiritual" e não só pois  no fundo querem continuar a manter o controlo das mulheres servindo-se delas de todas as formas como o fazem os políticos e os religiosos.  

Só a mulher pode e deverá falar de si mesma! Apesar de a própria mulher não estar  ainda em contacto com a sua essência primeira, ela devia primeiro recordar-se QUEM ERA  e ir ao fundo da sua psique.  Portanto o que elas ouvem dos homens e dos mestres e lhe ensinam sobre si nas escolas é precisamente tudo o que a alienou da sua natureza profunda, que contribuiu para a sua manipulação e ignorância de si e assim qualquer tentativa de mestres e de guias falarem da Mulher e da sua sexualidade é falseada e não é mais do que o homem sempre fez com a mulher: servir-se da sua ignorância e manipulá-la para o seu serviço seja qual for o seu interesse imediato. Assim o olhar do homem, por melhor intencionado que seja,  sobre a condição e saber da MULHER é quase sempre o olhar mais pernicioso e nefasto porque melhor pode afastar a mulher de si mesma e da sua essência, enganando-a com ideias e conceitos que a condicionam a ser esse travesti a que eles deram forma e que os gays copiam.
As mulheres, essas mulheres que foram as descendentes das nossas mães e tias  foram afastadas dos valores do feminino em nome da emancipação e da liberdade sexual, mas esquecemos que sem esses valores a sociedade regride e adoece...e por isso como diz no inicio o autor citado o mundo está em ruinas e digo eu à beira de uma guerra tremenda - a começar com a migração muçulmana que eu não posso nem por um minuto esquecer. O que a mulher feminista fez foi deitar fora com a água suja o bebé...
Precisamos de voltar a esses valores do verdadeiro feminino, sem esquecer que somos livres e para isso a mulher tem de estar consciente de si também ao nível do seu ser mais profundo. Que valores são esses pois?

"ESSES VALORES FEMININOS SÃO: O AMOR, O AFECTO, AS RELAÇÕES HUMANAS o contacto com a natureza e a vida. E as crianças, visto que a mulher também é mãe. Esses aspectos fundamentais do seu ser não os citei logo para evitar que a mulher que ler este texto suspeite da intenção camuflada de voltar a encerrá-la nos três famosos "K" Kinder, KUche, Kirche - crianças, cozinha e igreja."

E endosso as palavras de J. Guendher, em yuganaddha, The Tantric View of live:

"A consciência da mulher é diferente; ela já percebeu as coisas quando o homem ainda tateia na escuridão. A mulher percebe as circunstâncias que a cercam e as possibilidades a elas ligadas, algo que um homem costuma ser incapaz. Por isso, o mundo da mulher parece-lhe pertencer ao infinito, para fora do tempo e para o transcendente, pode fornecer as indicações e os impulsos mais válidos. Essa transcendência é a sabedoria, e esta supera o saber intelectual...A mulher e tudo a ela associado parecem bem estranhos ao macho e,, no entanto, isso faz parte de seu universo mais íntimo, à espera de se realizar por ele" (p.172)

rosa Leonor pedro 

PS: Eu sei que me repito infinitamente, mas esta é uma lição árdua de aprender...

sexta-feira, setembro 15, 2017

O HOMEM "CRIA" A MULHER...



UM OLHAR SOBRE A DOMINAÇÃO DO MASCULINO

"...pertencer a um tempo e a uma cultura significa possuir uma herança, constituída por um conjunto de recursos de interpretação, com a qual nos orientamos como humanos. Contudo, tal interpretação deve configurar‑se como um comportamento reflexivo perante a herança cultural e não representar uma aceitação passiva dela. Ou seja, “ter sentido histórico” obriga a reconhecer o legado cultural que recebemos, mas, obriga, igualmente, a re‑avaliá‑lo e a re‑interpretá‑lo, de tal forma que possamos re‑configurar, com maior equidade, a herança cultural que vamos deixar.

No caso das representações do feminino, o trabalho de interpretação do legado cultural é particularmente delicado porque tem de ser feito ao arrepio daquilo que mais profundamente nos constitui, tendo de começar por uma desconstrução e por uma hermenêutica da suspeita, uma vez que as representações do feminino mais enraizadas advêm de uma concepção antropológica assimétrica, que toma o masculino como padrão e o feminino como derivado.

Nesse contexto desconstrutor e de suspeição, um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve deixar‑se orientar pela ideia de que a dominação masculina não foi universal e pacificamente aceite, mas apenas assumiu o aspecto de parecer ter sido absolutamente aceite. Ou seja, re‑significar a nossa História comum, de homens e de mulheres, obriga a procurar os ruídos à aceitação universal da dominação masculina que ocorreram e trazer à luz os sinais da ambiguidade e da complexidade nas relações de poder entre os sexos, que todas as épocas testemunham. Sem a desocultação desses acontecimentos não será possível fazer um novo caminho de entendimento do nosso modo de ser e de estar e, nós, mulheres, estaremos desmunidas de figuras femininas que materializem a possibilidade de nos olharmos como seres humanos integrais. Além disso, se aceitarmos passivamente a ideia de que a dominação masculina foi sempre completamente aceite, estamos a fazer uma nova discriminação em relação à nossa herança cultural, porque não fazemos justiça a quem se insurgiu contra a dominação do masculino, e estamos, por nossa vez, a invisibilizar o seu esforço, reiterando o legado cultural que o conseguiu escamotear.
Tal interpretação reflexiva da tradição ocidental vai mostrar‑nos um modo de pensar as mulheres e o feminino, a que se poderá chamar pensar canónico − que dá das mulheres e do feminino uma visão negativa e subalterna −, mas também uma contracorrente de pensamento ou ruídos marginais ao pensar dominante que evidenciam o facto de a aceitação da dominância do masculino nem sempre ter sido pacífica."


FERNANDA HENRIQUES
(Docente na Universidade de Évora)

MULHERES QUE PENSAM...



KATE MILLETT  (1934-2017)


"A imagem da mulher tal como a conhecemos é uma imagem criada pelos homens e moldada para servir as suas necessidades"

"O conceito de amor romântico possibilita um meio de manipulação emocional que o macho é livre de explorar, dado que o amor é a única circunstância em que a fêmea é (ideologicamente) perdoada por ter actividade sexual."...



KATE MILLETT

terça-feira, setembro 12, 2017

A DIVISÃO DO HOMEM...




O grande Mistério do Homem é a Mulher...

Ao sonegar a mulher o homem  não a conhece, e não a conhecendo a Ela nem A reconhecendo como Deusa, não se conhece a si mesmo, nega o seu feminino, pois é a Mulher a grande reveladora dos Mistérios...é Ela que une o Céu e a Terra; assim, sem a mulher, o homem é um ser puramente desnaturado, violento e vingativo. Ao estar incompleto ele divide a mulher também, em uma mulher "mãe", a santa e obediente ao marido (Eva) e uma mulher fatal, sexual, a prostituta ...daí o Caos do Mundo que ele criou...na sua face deus-pai, banindo e sacrificando a Mulher e a Mãe da Humanidade.
Sem acesso ao Mistério, que é Mãe, ele não tem acesso ao seu Feminino e ao Universo composto dos dois lados os polos opostos da Manifestação.
Mas o nosso maior drama é que a mulher não sabe de si nessa proporção de grandezas, a sua porque foi  diminuída e se tornou a  ínfima espécie, pelo Homem...ao dominar e destruir a Natureza e a Vida e a Mulher...escravizando-a como ser e prostituindo-a como mulher - dividindo-a em duas -  e tornando-a infame aos olhos do Homem.

AS mulheres acreditam nas religiões e num deus que sempre as ostracizou e condenou como pecadoras e culpadas; foram mortas e perseguidas como bruxas e queimadas vivas em fogueiras da Inquisição - são ainda apedrejadas, violadas e mortas...e em pleno sec. XXI continuam a seguir as mesmas religiões e credos que as castigaram ao longo dos milénios...
As mulheres são mesmo "servas do Senhor"...nunca se ergueram por si, sempre se submeteram a Lei de Deus e do Homem.

rosaleonorpedro

sexta-feira, setembro 08, 2017

O AMOR DO CORAÇÃO





"O Conhecimento dos poderes do coração é indispensável à prática do Caminho do Meio pois este é só se pode praticar através da preponderância desses poderes e da sua influência. Esta via é um balanço constante entre o egoísmo do Eu e o altruísmo do Si."

 ... "Só o coração pode realizar o prodígio do equilíbrio, pela sua posição mediadora entre o temporal e o intemporal, entre o organismo mortal e o seu arquétipo imortal. A alternância do seu movimento (dilatação-contracção) é a imagem perfeita desse balançar entre os dois poderes, do qual o pessoal tem de se tornar consciente, para ser transcendido pelo impessoal".


de ISHA SCHWALLER DE LUBICZ

"O Amor do coração foi progressivamente abafado por quatro mil anos de dominação dos homens, que limitaram a participação das mulheres à família e ao lar. Resultou disto uma repressão dos valores femininos no Homem, e com eles o próprio Amor. A nossa cultura masculinista esta na raiz do desenvolvimento extremo das qualidades intelectuais mais particularmente da razão, que leva ao domínio absoluto da ciência e da tecnologia, e limita a educação ao puro intelecto. Os valores do ...coração e do espírito são desprezados e relegados à religião. Resulta disto um abismo entre razão e o coração. E chegamos ao extremo das aplicações frias da ciência através da tecnologia, à fabricação descontrolada de armas e ao seu uso na matança de seres indefesos no terrorismo ilegal e nas guerras legais, tanto faz. As empresas usam as tecnologias tanto a serviço de valores construtivos ou destrutivos desde que se obtenha o devido lucro."


Pierre Weil

ELA AGORA












ELA - AGORA

Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas...
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós
Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora



ana hatherly

“Sabe o que eu quero de verdade?



“Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...”

Clarice Lispector

quinta-feira, setembro 07, 2017

"Amamos matar uns aos outros"

SERIA BOM VER AS ESTATISCAS DO CRIME E DA GUERRA...e perceber quem mata quem e o quê...

Os homens, os mais eruditos e santos, nos seus tratados e filosofias pensam sempre no Homem e em si como referência absoluta de uma realidade que é patriarcal e masculina e...não a FEMININA, mas que desde a essência à manifestação, é parte integrante da nossa realidade. Todavia ao não considerar estes dois aspectos do ser humano que foram sempre  amalgamados e referidos como só existisse um principio, o masculino, o Pai  e o filho, os grandes eruditos e pensadores, esquecendo por isso e de forma gritante o feminino em tudo, também não percebem que o olhar da natureza pelo feminino é diferente, e assim veem a vida de um anglo apenas, o masculino, racional activo e logico, que ao aglutinar, colonizar a mulher, se esquecessem de que a Mulher não é igual ao homem em nada e que a Natureza da Mulher não corresponde a esta definição de humanidade que o grande sábio indiano refere; mas o mais gritante é as próprias mulheres identificarem-se com este discurso e não olharem para si e verem a grande diferença do SENTIR FEMININO ou NÃO  olhar para o que as estatísticas de todo o mundo mostram. As prisões estão cheias de homens e poucas mulheres, as guerras são feitas por homens, e os crimes mais hediondos são cometidos e praticados 90% cento por HOMENS. E para começar quando o autor diz que nós nunca parecemos ter um sentimento por todas as coisas vivas sobre a terra é porque eles homens  não o sentem porque NEGARAM O PRINCIPIO FEMININO, A NATUREZA E A MULHER. Como diz Raissa Cavalcanti no livro "O Casamento do Sol com a Lua":

"Muitas das qualidades primordiais do feminino foram deturpadas do seu significado. Foram impostas outras significações, adequadas a uma mentalidade que valoriza o uso da força sobre o outro. O feminino viu-se reduzido ao fraco, ao submisso, ao incapaz. Essas atribuições pejorativas que lhes foram impostas passaram a ser usadas como mecanismo de controlo. A grande manifestação do feminino é a capacidade de colher, cuidar e nutrir em seu seio largo e inesgotável. Nesse seio da Terra-Mãe as coisas podem se desenvolver por si em todas as suas possibilidades, sem que ela nada lhes acrescente ou precise fazer."

Portanto foi culpa do homem que esses valores do feminino se tenham perdido porque a MULHER SENTE E VIBRA COM A NATUREZA, sempre teve compaixão por todos os seres vivos e amor aos animais e às árvores, plantas flores e tudo o que está vivo...são os homens que apelam a destruição da vida e à morte...são os homens que fizeram as guerras e destruíram toda a Natureza por ganância e cobiça e ainda hoje em pleno seculos XXI violam e matam as mulheres...
É evidente que há sempre a excepção à regra...houve homens pacíficos e amorosos ao longo da história  como houve mulheres bélicas e odiosas...mas...aquilo que os milhares de anos nos mostram efectivamente é que a Mulher é pacifica de natureza porque  dá a vida e não tem apetência para matar os seus filhos nem os animais...excepto mais uma vez quando o homem a destrói e a torna um macho bélico também, como é o caso das mulheres que vão para a guerra e que se sentem iguais aos homens...
Agora tirem a mulher desde discurso e deixem todos estes actos ao Homem...porque sim, eles são os grandes responsáveis pela destruição do Planeta...
rlp

"Nós nunca parecemos ter um sentimento por todas as coisas vivas sobre a terra.

É estranho que nós tenhamos tão pouca relação com a natureza, com os insetos e a rã saltadora e a coruja que pia nas colinas chamando seu par. Nós não parecemos ter um sentimento por todas as coisas vivas sobre a terra. Se pudéssemos estabelecer uma profunda relação abrangente com a natureza, nunca mataríamos um animal por nosso apetite, nunca feriríamos, vivisseccionaríamos um macaco, um cão, um ...porquinho-da-índia para nosso benefício. Descobriríamos outras formas de curar nossas feridas, curar nossos corpos. Mas a cura da mente é algo totalmente diferente. Essa cura gradualmente acontece se você está com a natureza, com aquela laranja na árvore, e a folha de grama que brota no meio do cimento, e as colinas cobertas, escondidas, pelas nuvens. Isto não é sentimento ou imaginação romântica mas a realidade de uma relação com tudo que vive e se move sobre a terra. O homem matou milhões de baleias e ainda as está matando. Tudo que conseguimos com o extermínio delas, podemos conseguir por outros meios. Mas aparentemente o homem adora matar coisas, o cervo ligeiro, a maravilhosa gazela e o grande elefante. Amamos matar uns aos outros. Este matar de outros seres humanos nunca parou ao longo da história da vida do homem nesta terra. Se pudéssemos, e nós devemos, estabelecer uma profunda, abrangente relação com a natureza, com as árvores verdadeiras, os arbustos, as flores, a grama e as rápidas nuvens, então nunca mataríamos outro ser humano por qualquer razão que fosse. Assassinato organizado é guerra, e embora nos manifestemos contra uma guerra particular, a nuclear, ou qualquer outro tipo de guerra, nunca nos manifestamos contra a guerra. Nunca dissemos que matar um outro ser humano é o maior pecado na terra." 
Krishnamurti to Himself 25th February, 1983

A DESTRUIÇÃOD A TERRA



A DESTRUIÇÃO DA TERRA
COMEÇA NOS CULTOS DO DEUS PAI...

"Esta destruição globalizada é conseqüência do predomínio das sociedades, culturas e valores patriarcais que instauraram a dominação do homem sobre a Natureza e sobre a mulher. Desde a mais remota antiguidade a Natureza – e principalmente a Terra - era considerada como a expressão máxima do princípio sagrado feminino, Deusa e Mãe dadivosa, criadora, geradora, nutridora e mantenedora da vida e de todos os seres da criação. As anti...gas religiões perceberam a íntima conexão existente entre a Deusa, a Terra e a mulher e interpretavam o mistério da vida e da morte como um ciclo natural e eterno, visível nos ritmos e padrões cósmicos, na dança das estações e na Roda das reencarnações.
Segundo o historiador e escritor romêno Mircea Eliade, o mito do “eterno retorno” (título de um dos seus livros) era personificado no ciclo biológico de todas as mulheres, em cada gravidez que produzia uma nova vida, em cada menstruação que a negava. A Terra reproduzia no seu relevo as formas femininas e o corpo da mulher era honrado e respeitado pelos povos antigos como um receptáculo sagrado. Identificando a mulher com a Terra e honrando esta como uma divindade, nossos ancestrais concluíram que o poder divino que presidia a criação, que nutria e sustentava a vida, era feminino. Segundo os mais recentes estudos de antropologia, arqueologia e sociologia concluiu-se que “Deus era mulher” durante pelo menos os últimos trinta mil anos, conforme atestam as milhares de estatuetas e gravuras representando mulheres grávidas, dando a luz ou amamentando, oriundas dos períodos paleolítico e neolítico. Foram encontradas em grutas, locais sagrados ou túmulos, junto com ossadas pintadas de vermelho e em posição fetal, para assim representar o seu renascimento, do sagrado sangue da Mãe Terra." (...)


Mirella Faur

A SALVAÇÃO DA TERRA



A SALVAÇÃO DA NOSSA TERRA
Aurobindo escreveu:
"Se existir um futuro, ele irá usar a coroa do modelo feminino”.

"Uma grande tragédia do nosso mundo é o facto de a verdade harmoniosa desde o casamento de opostos ter sido esquecida num desastroso excesso de ênfase daquilo a que podemos chamar valores de poder, controlo e domínio “masculinos” negativos. Este desequilíbrio resultou na catastrófica crise global que pode ser vista na nossa adoração hierárquica económica, cultural e política; no crescimento de diferentes e letais fundamentalismos; na nossa obscena violação da natureza e da Terra; e nas nossas visões religiosas do divino desnaturam a matéria, desonram a sexualidade, desvalorizam o poder sagrado das relações e debilitam radicalmente a santidade da própria vida. O resultado é o perigo apocalíptico potencialmente terminal que actualmente nos ameaça e desespera, e a falta de significado e a sensação de desespero que a todos ameaça. No entanto, como nos lembra o grande poeta Holderling: “Onde há perigo, surge a salvação”.

A salvação na nossa era, penso eu, assenta na completa e total reconstrução do feminino – a Mãe – em todos os estados de espírito, aspectos, qualidades, paixões e poderes. Somente o regresso da noiva banida e degradada em todo o esplendor, pode restituir um casamento sagrado autêntico entre o masculino e feminino capaz e resplandecente a todos os níveis da nossa vida tanto interior com exteriores.... Com o regresso da Mãe, a raça humana pode uma vez mais ser infundida com a sua compreensão de interdependência, com a sua identificação com todos os seres sencientes em ilimitada compaixão, o seu grande apelo de justiça para todos e com todo o seu terno apreço à vida. Somente a sabedoria e amor desta Mãe em acção em todas as áreas da vida pode agora salvar a raça humana. O grande sábio indiano Aurobindo escreveu: "Se existir um futuro, ele irá usar a coroa do modelo feminino”.


Excerto do Pósfácio de: DEUSAS DA GALERIA CELESTIAL
do pintor tibetano Romio Ahresth – escrito por Andrew Harvey

segunda-feira, setembro 04, 2017

 O ENCONTRO COM A MÃE DIVINA



CELEBRAÇÃO DO CORAÇÃO - DIA 3 DE SETEMBRO Dia internacional da Deusa.


“O encontro com a Mãe Divina é uma etapa essencial para a nossa consciência, totalmente incompreensível para o intelecto. Porque a Grande Mãe é o Todo. Ela é o próprio Corpo da criação, Ela sustem o universo, a sua Essência está em todo lado. E a sua Essência é Amor puro. Ela é a Matriz última, da qual somos todos filhos.(…)
Ela levanta para nós o véu da Ilusão, e convida-nos a vê-La em tudo. Ela reina sobre todas as m...anifestações do elemento água..., quer sejam físicas ou mais subtis.”


* MEM – 13

Marie Elia – Rencontres Avec la Splendeur

sábado, setembro 02, 2017

A BURKA DO OCIDENTE...



Tenho horror as cirurgias estéticas...assustam-me as mulheres que as fazem; Não julgo nem condeno,  já bastam os desastres e as doenças que a isso obrigam...mas para mim é a negação da natureza e de si mesma como Ser Integro - cortar o corpo, a pele ou membros, é alterar uma geografia intima que responde à alma...o tecido que achamos ser a pele - é o corpo que recebe as primeiras impressões de tudo o que se passa fora como receptáculo e as transmitem a alma...
No corpo da mulher (e do homem) tudo é SAGRADO, na ordem natural das coisas...
Por isso em nome da estética ou da imagem as mulheres que se "operam" me deixam angustiada...assim os transsexuais, homens e mulheres - como se fossem assassinos da alma e do sagrado em si...O olhar materialista e comercial das ultimas décadas desvirtuou completamente o sentido do uno e do sagrado...por isso as forças involutivas e as mafias medicas e outras as defendem e propagam em nome da "liberdade" que não é mais do que uma maior e absoluta escravidão...
O Corpo humano é um receptor das forças cósmicas e telúricas por excelência - e as forças negativas anti-espirito não querem isso...há que destruir tudo o que é divino e sagrado...



rlp

COMO SE APAGAM AS MULHERES NOTAVEIS DA HISTÓRIA



“MINIMIZAR, DENEGRIR E RIDICULARIZAR
AS MULHERES NOTÁVEIS DO MUNDO ANTIGO


Na mesma linha de pensamento que tenho vindo a desenvolver, parece igualmente possível considerar o androcentrismo, sob a capa de universal neutro, como um factor importante do silenciamento ou da minimização das mulheres que, apesar de toda a invisibilização, não foi possível fazer desaparecer da história das ideias e da cultura. Sobretudo os casos de Safo e Aspásia podem ser tomados como paradigma da ...ocultação do feminino para fazer crer, deliberada ou inconscientemente, que as mulheres sempre se limitaram ao gineceu e que a dominância do masculino foi universal, pacífica e “segundo a natureza das coisas”.
(…)
A recepção de Safo e Aspásia tem em comum o facto de ambas serem articuladas com a questão da sexualidade; contudo, tem também diferenças que se prendem com o que pode ter sido a sua história pessoal e os tópicos pelos quais adquiriram relevância.
Quanto a Aspásia, a maior parte das pessoas para quem o seu nome tem algum significado associam‑na à sua relação amorosa com Péricles, de quem foi amante. Saberão, certamente, também, que ela tinha uma grande influência nele, nomeadamente, para as coisas negativas, mas, de um modo geral, não se associará Aspásia a um círculo de elite intelectual de Atenas, onde ela pontificava como os homens notáveis que também o integravam, evidenciando com a sua existência que havia, em Atenas, outras maneiras de se ser mulher sem ser a de esposa fiel e submissa de qualquer ateniense, garantindo através dessa fidelidade e submissão a honra do nome e a posse dos bens. Este olhar global e generalizado sobre Aspásia testemunha do mesmo ideologismo interpretativo que se encontrou em Safo, mostrando que quando não é possível ignorar as mulheres divulga‑se delas aquilo que é mais desprestigiador aos olhos de uma moral, também ela apenas, pretensamente, neutra.”



FERNANDA HENRIQUES, in “Concepções filosóficas e representações do feminino: Subsídios para uma hermenêutica crítica da tradição filosófica”

sexta-feira, setembro 01, 2017

A MULHER

"Radiosa, Ardente e Querida Amiga Cósmica, emanada da Grande DIVINA ALMA; tão encantadora e toda ela Graça, Gosto e Sensibilidade requintados, eis-Te aqui caída, Tu também, Vítima da selvajaria, da brutalidade, do Horror sem nome da nossa Época"
(...)...

Alberto-Louis Caillet

O SONHO



Medo de ser magoad@s…

“…Para protegerem as feridas emocionais, e por terem medo de ser magoados, os seres humanos criaram um sistema mental muito sofisticado: o... da negação. É através desse sistema de negação que nos tornamos uns perfeitos mentirosos. Mentimos tão bem que o fazemos connosco e até acreditamos nas nossas próprias mentiras. Não nos damos conta que estamos a mentir e, por vezes, mesmo quando sabemos que estamos a mentir, justificamos a mentira e desculpamo-nos para nos protegermos da dor das nossas feridas.
O sistema de negação é como uma parede de névoa diante dos nossos olhos, impedindo-nos de ver a verdade. Usamos máscaras sociais, porque nos é demasiado doloroso vermo-nos tal como somos ou permitir que os outros vejam o que realmente somos. E o sistema de negação permite-nos fingir que acreditamos que os outros acreditam naquilo que queremos que eles acreditem sobre nós. Erigimos estas barreiras de protecção para manter os outros à distância, mas acabamos por ficar encurralados e sem liberdade.
Os seres humanos defendem-se e protegem-se, e quando alguém diz “estás a enervar-me” não é exactamente verdade. A verdade é que estamos a tocar numa ferida mental que provoca dor e faz reagir. Se tiveres consciência de que todas as pessoas que te rodeiam têm feridas emocionais repletas de veneno, mais facilmente compreenderás o relacionamento dos seres humanos naquilo a que os Toletecas chamam o sonho do inferno. Do ponto de vista dos Toletacas, tudo aquilo que pensamos ser e tudo aquilo que sabemos sobre o nosso mundo é um sonho. Se procurares a descrição de inferno em qualquer religião, encontrarás a descrição da sociedade humana tal como a sonhamos.
O inferno é um local de sofrimento, medo, guerra e violência; é um local de julgamentos sem justiça; um local onde o castigo nunca acaba. São seres humanos contra seres humanos, numa selva de predadores; seres humanos repletos de julgamentos, de culpa, de recriminação e de veneno emocional – inveja, ira, ódio, tristeza, sofrimento. Criamos todos esses pequenos demónios na nossa mente, porque aprendemos a sonhar com o inferno na nossa própria vida.
Todos temos um sonho pessoal para o nosso eu, mas, mas os seres humanos que viveram antes de nós criaram um enorme sonho exterior que é o sonho da sociedade humana. O sonho exterior, ou sonho do Planeta, é o sonho colectivo de milhares de sonhadores. Esse enorme sonho inclui todas as normas da sociedade, as suas leis, religiões, diferentes culturas formas de ser. Toda essa informação armazenada na nossa mente é como mil vozes a falarem ao mesmo tempo. Os Toltecas chamam-lhe mitote.
O nosso eu verdadeiro é amor puro; nós somos a Vida. O nosso eu verdadeiro não têm nada que ver com o sonho, mas o mitote (o barulho?) não nos deixa ver-nos como realmente somos…”


Do Livro o Mestre de Don Miguel Ruiz

O Labirinto


Foto de Rosa Leonor Pedro.


"As escadas ao fundo. Sem nome, era esse o nome. Era assim, sempre assim, ‘’Sem Nome ‘’… qualquer coisa era sem nome, nada tinha significado. Todas as tardes gritava com todos os pulmões, aqueles que ainda lhe restavam. Gritava, ‘’Quero ir!! Ir…’’; ‘’Tirem-me daqui. Daqui, deste lugar! ‘‘… e sempre lhe respondiam, ‘’Onde estás?’’. Ela, lá respondia sempre e sempre cansada, ‘’Aqui!! Estou aqui!!’’. Ela sempre lá estivera, e nunca a viram e continuaram a não ver!! Há apenas na atmosfera uma falsa consciência onde ela está! É esta a verdade e os Labirintos, não é coisa que Homem algum consiga ver, porque não é a ‘’coisa ‘’ dele."


Rabiscado por NãoSouEuéaOutra

quinta-feira, agosto 31, 2017

AS FORÇAS DAS TREVAS e involutivas estão contra a Mulher.




O MEDO DAS MULHERES SE DIZEREM

O medo das mulheres em se exprimirem, de forma espontânea e natural,  esse medo atávico, que as oprime e que apesar de toda a liberdade de expressão nos dias ainda tem, sobretudo no que diz respeito ao que sentem vindo do mais fundo de si, tem a ver com o calamento secular da sua verdade essencial, desde que foram votadas ao descrédito por Apolo (no mito de Cssandra, ultima profetisa da Deusa). Essa incapacidade das mulheres de se expressarem do mais fundo de si, revelando ou exprimindo o seu pressentir e intuição, tem a ver com  forma  como foram obrigadas a silenciar e como forma submetidas e reprimidas no circulo familiar e dentro do contexto religioso, a calarem-se e isto durante anos e anos a fio - e que vem já lá detrás, muitos anos antes, vem das avós e das mães e da sociedade em geral que reprimiu o Feminino profundo e calou as mulheres na expressão do seu ser mais autêntico, transformando-as em marionetas do sistema.
O lado feminino e as suas qualidades,  intuitivas, preceptivas e emocionais, foram suprimidas e renegadas e tratadas como inferiores e insignificantes e dai as mulheres serem consideradas loucas, despropositadas face a logica masculina, consideradas histéricas ou megeras e bruxas, diabólicas, se não se comportassem bem e de acordo com o que os homens ditavam para elas: pais, avós e irmãos tios e filhos e padres.  Qualquer homem tinha poder de mandar calar as mulheres e de mandar nelas como propriedade sua,  fossem mães, filhas ou irmãs - os homem tinham a tutela das mulheres como hoje a têm ainda os muçulmanos no mundo árabe e assim eram igualmente com as suas mulheres os judeus e os cristãos. As três religiões patriarcais que desprezam e maltratam as mulheres nas suas escrituras sagradas.
Dizem-me as vezes que não é tanto assim hoje em dia, mas eu conheço ainda filhas e netas, conheço muitas mulheres de 50 anos e menos que foram assim desautorizadas e reprimidas por pais e mães até...e que continuam submissas e incapazes de se libertarem de pais maridos e até filhos...incapazes  de se exprimirem em todos os sentidos da sua natureza abundante e profícua de mulheres mães e geradoras de filhos e pródigas em atributos.
Toda a natureza da mulher em termos da sua magnificência e poder magnético, o seu poder  sensual e sexual e afectivo está cativo e prisioneiro de normas e conceitos que são como que um espartilho que a mulher moderna usa a nivel psicologico tal como as mulheres dos seculos XVII usavam no corpo. As mulheres deste século libertaram o corpo, mas não libertaram o seu ser profundo e a sua alma, bem pelo contrário. Dai as mulheres no nosso tempos terem acabado por optar pelo pensamento e ego masculino e a visão racional das feministas em geral. O feminismo transformou a mulher em macho e matou o que restava na mulher do feminino (ontológico) e hoje quando uma mulher se quer exprimir como mulher através da sua sexualidade fá-lo de forma grosseira e superficial, volúvel mesmo, e não tem a dimensão de excelência nem a grandeza e beleza que só a sacralidade confere a Mulher desperta, a mulher plena, tão distante das mulheres comuns, mesmo as de sucesso ou supostamente livres como as atrizes cantoras e as empresárias, médicas, advogadas e deputadas etc. por todas estas razões e a mulher estar tão longe da sua essência os homens pensam que podem aceder a esse feminino mudando apenas de aparência...

Enganámo-nos todas com a aparência de uma suposta liberdade ocidental alcançada de há um século a esta parte e em um séculos de avanço sobre os muçulmanos, mas esta igualdade e liberdade das mulheres, pela qual as feministas lutaram  foi só em parte verdade e em parte aparente, prova-a o facto de, neste momento, estarmos perante um enorme retrocesso civilizacional e ainda por cima com a ameaça cada dia mais clara da invasão islâmica, tanto como pela as ultimas referencias de presidentes ocidentais,  padres, bispos  e governantes, que defendem de forma subliminar a volta da mulher ao lar e que no fundo qualquer homem comum, (se não for gay) bem lá no fundo deseja: ele deseja  que as mulheres não lhes façam sombra e que voltem para "o lar":  fiquem em casa de novo a serví-los e a tratar dos filhos para que não só deixem o trabalho para eles como querem que elas continuem submissas e debaixo da sua pata. Prova-o o facto de não mostrarem grande preocupação com a ofensiva islâmica sobre as suas mulheres e filhas...poucos homens se insurgem perante esta ofensiva brutal de violações e perseguições a mulheres europeias por parte de migrantes em toda a Europa! Recentemente o presidente da Chechénia (um imbecil qualquer para não dizer um "chéché) ...decretou uma lei de que as mulheres separadas deviam voltar para casa para os maridos e tomar contas dos filhos...

AS mulheres no Ocidente entretanto convenceram-se que tinham ganho a sua liberdade e garantido a igualdade de direitos, mas agora em pleno sec. XXI,  elas  começam a perceber que não estão tão  livres como pensaram e   veem-se perante este impasse de terem que regredir na sua  maneira de vestir e não andarem sozinhas nem de noite como já era natural nas principais cidades da Europa livre, como Berlin, Roma, Paris ou Estocolmo. Desde que a invasão migratória (consentida pela Alemanha e a União Europeia) de islâmicos começou esses  padrões de liberdade e afirmação das mulheres começa a regredir e elas  a recuar com medo das violações e ataques com armas brancas na rua e a evitar um certo tipo de roupa, a esconder o corpo e a evitar sair sozinhas para não serem molestadas pelos migrantes tal como nos países árabes e diríamos até que a policia e os Estados estão a ser coniventes com isto - eles escondem e não denunciam as ofensas a integridade física das mulheres, as violações e os abusos,  porque tudo isto é orquestrado com o fim de fazer a mulher voltar ao lar e a ser de novo a escrava directa de cada homem para assim o manter preso e a produzir melhor...
Portanto se a mulher não romper este medo e este ciclo vicioso, não indo para a rua despir-se nem aos gritos, mas cada uma sustentadamente tomar consciência de tudo isso,  poderão então fazer a diferença, em vez de se irem na boca do lobo com reivindicações que nunca serão satisfeitas ...tal como o não foram senão aparentemente estes anos de pseud libertação. Uma verdadeira libertação da mulher está na Consciência de si e do seu valor intrínseco como mulher e não na sua afirmação social por direitos e igualdade...que estão em vias de voltar a perder, porque não fizeram o trabalho de verdadeira consciência de si como mulheres e apenas quiserem ser iguais  imitar os homens...

rlp 

O QUE DEFINE UM SEXO NÃO É A ROUPA NEM A MAQUILHAGEM...

PORQUE NÃO É TODA A GENTE APENAS
UM SER HUMANO?

Primeiro (no meu tempo) era o conservadorismo total - a ideia comum do "normal" -, a única coisa aceite pela sociedade civil ou pela igreja católica e as massas viviam vinculadas à moral vigente. Depois, houve muitos movimentos de libertação  e revoluções e as coisas foram evoluindo e o diferente foi aceite, incluído...como diferente. As minorias foram aceites e veio o orgulho Gay lésbicas, como bandeira e o Lobby Gay que tudo quer dominar...Assim, essas minorias extrapolam tudo e  inverteram-se todos os valores, e temos os Mídea a fazer  a apologia da diferença ou da "anormalidade" (não falo de anomalias)  em tudo - e a dita "normalidade" (o consenso e comportamento das maiorias) passa a ser visto como um crime grave, lesa minorias...e acaba nesta loucura de que todos temos de ser homossexuais e transsexuais e até as criancinhas...e parece que se é obrigadão a conviver em total harmonia para além da aceitação temos todos de pensar o mesmo e ser coniventes com as maiores aberrações que a mente humana fabrica.
Desse modo estamos a assistir a esta descaracterização do feminino e do masculino, por um lado saudável, uma vez que a mulher sempre foi uma imagem inventada pela moda, e essa imagem se está a desconstruir, mas por outro lado cai-se no outro extremo e a mulher parece que tem de se transformar agora  num travesti do homem, e o homem UM TRAVESTI da mulher (inventada) o que já aconteceu há umas boas décadas. Isto tudo é algo que aflige qualquer pessoa de bom senso. Posso até pensar e admitir que somos tod@s andróginos psiquicamente ou até talvez tod@s bissexuais, mas daí a termos de nos mascarar indefinidamente mulheres de homens e homens de mulher...e vir gritar para os palcos...ai, o meu género...?

QUANDO É QUE FATO E GRAVATA É FACTOR DE MASCULINIDADE? Quando é que maquilhagem e silicone e vestidos decotados é factor de feminilidade?

HÁ TERRORISMOS que matam e terrorismos que contaminam...

rlp

A continuidade de consciência



MORREMOS MILHÕES DE VEZES NUMA VIDA...

"A pessoa sábia sabe que, na realidade, vive-se a morte a cada momento. Nós morremos milhões de vezes em uma vida, e milhões de vezes nós nascemos. Cada momento que passa é como um momento de morte. Um momento morre e outro momento nasce; uma experiência morre e outra entra em ser. A morte precede o nascimento e o nascimento precede a morte, mas nós experimentamos uma continuidade de consciência através destas mortes e nascimentos."

in - a psicologia perene do Bhagavad Gita Por Swami Rama

AS CARICATURAS DA "MULHER"


TRANSGÉNEROS:  "CONSIDERO ESTA PRATICA COMO UMA VIOLAÇÃO CRIMINAL DOS DIREITOS HUMANOS"

Numa entrevista com “The Weekly Standard” a escritora Camille Paglia, que nunca teve medo de confrontos (identificando-se publicamente como lésbica na década de 1960) fez alguns fortes comentários sobre o transgenderismo, dizendo: "A fria verdade biológica é que as mudanças de sexo são impossíveis "
Jonathan Last perguntou-lhe porque não houve um confronto aberto entre o feminismo e o trans...genderismo, Paglia respondeu que esse confronto já aconteceu no Reino Unido, mencionando os ataques da comunidade “transgender” à icónica feminista Germaine Greer e á feminista australiana radical Sheila Jeffreys, a autora de “Gender Hurts”.
Paglia observou: "Jeffreys identifica o transexualismo com a misoginia e descreve isso como uma forma de"mutilação ". Ela e as suas aliadas feministas encontraram prolongadas dificuldades em obter um local seguro para falar em Londres, devido às ameaças e agitação por parte dos activistas transgêneros".
Ela continuou:
Sou altamente céptica sobre a actual onda transgênero, que eu creio ter sido produzida por factores psicológicos e sociológicos muito mais complicados do que o actual discurso do género permite. Além disso, condeno a crescente prescrição de bloqueadores da puberdade (cujos efeitos a longo prazo são desconhecidos) para crianças. Considero esta prática como uma violação criminal dos direitos humanos. É certamente irónico como os liberais que se colocam como defensores da ciência quando se trata de aquecimento global (um mito sentimental não apoiado por evidências) fogem de toda referência à biologia quando se trata de género.
Então, o tiro certeiro:

"A verdade fria biológica é que as mudanças de sexo são impossíveis. Cada célula do corpo humano permanece codificada com o género de nascimento para a vida. Podem ocorrer ambiguidades intersexuais, mas são anomalias de desenvolvimento que representam uma pequena proporção de todos os nascimentos humanos ".

Paglia acrescentou: "Como Germaine Greer e Sheila Jeffreys, rejeito a coerção patrocinada pelo Estado para chamar alguém de" mulher "ou de" homem "simplesmente com base no seu sentimento subjectivo sobre isso.”

NÃO ESQUEÇAM: A MULHER NASCE MULHER



AVISO ÀS MULHERES CONSCIENTES DE SI...

Acreditem minhas amigas...estamos num tempo em que as armadilhas do patriarcado e os seus tentáculos se estendem cada vez mais e por todos os lados e que de todas as maneiras nos querem iludir e desviar do verdadeiro caminho da Mulher que é Ela mesma. Ela é um Manancial fechado...e tem de se dar ela mesma à Luz...não há ensinamento nem guias - só a mulher tem acesso a esse Manancial.
O Segredo e o Tesouro da mulher e da Deusa está guardado no seu coração e no seu Utero - dai "Antes do verbo era o Utero"; E é a voz do Utero que nós temos de acordar - a nossa intuição profunda - e não a voz da mente, da logica e do conhecimento racional - dando voz ao predador em nós, pois todas as ideias que assimilamos e que defendemos mesmo sem saber, são do homem, sobretudo o aliado maior do patriarcado o nosso ego masculino que assimilamos em defesa dos nossos direitos...e que corresponde ao nosso desejo de vencer e ser maior do que as outras, como vemos estar a acontecer por todo o lado com o dito Feminino Sagrado que até homens transexuais reivindicam como seu...e procuram desse modo desvalorizar o facto incontornável de se NASCER MULHER e a mulher ter em si o Poder de dar a Luz e Iniciar o homem.
Isto é um AVISO para aquelas que querem mesmo seguir o seu caminho de dentro e não colher louros da divisão e da  farsa patriarcal que se mascara de todas as formas para enganar e desviar as mulheres do seu caminho iniciático: elas mesmas.

A inveja do Útero e o ódio a Mulher e à Mãe está disseminado e disfarçado de muitas formas - ela pode travestir-se de muitas maneiras e toda a linguagem está adulterada e engana as mulheres mais ingénuas e ignorantes...Grassa a maior superficialidade e ignorância de valores e princípios indiscutíveis, desde o conhecimento biológico, ontológico e cosmológico.rlp.

segunda-feira, agosto 28, 2017

O SOFRIMENTO



"O sofrimento que conduz a um Eu genuíno difere diametralmente do sofrimento que opta pela redenção pela identificação com algo que lhe é exterior. Só se formos capazes de não fugir ao nosso sofrimento poderemos diferenciar-nos."

"A TRAIÇÃO DO EU" Arno Gruen

Se eu fosse eu



"Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro."
clarice Lispector

Se eu fosse eu

"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas a primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais."

Clarice Lispector 

deusa das aguas



"Oh Deusa das águas, tens dentro de ti a seiva que dá vida.
Alimentas-nos com ela, como as mães dão o peito...

O teu seio inesgotável, Sarasvati, que flui como o alimento de vida
e que tu usas para nos nutrir, com tudo o que possamos desejar,
dá-se-nos sem que receis perder o teu incomensurável tesouro..."


in Rig Veda - UPANISHADS

quinta-feira, agosto 24, 2017

as coisas dolorosas




A CONSCIÊNCIA ESTÁ ACIMA DAS EMOÇÕES

“Quando as coisas são dolorosas, vemo-las no campo das emoções e não no campo da consciência."*

"O modo como o outro nos fez sentir, embate primeiro no campo das emoções. É o cordão que nos liga à evolução das espécies, ao crepúsculo que nos tornou humanos, à força que não nos separa da infância....
A dor ou o conforto põe-nos a nu, e maturidade, diplomas ou capacidade intelectual, pouco servem perante as dolorosas sensações que chegam. Do profundo poder que escorre delas, será preciso contar com um longo trabalho do pensamento e da linguagem, da consciência, para as compreender, aceitar e as tornar suportáveis.
Dão alento aos dias, as outras, as coisas calorosas que dispensam o raciocínio."


Cristina Simões
*João Redondo, psiquiatra

APRESSA-TE AMOR...






















Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural"





quarta-feira, agosto 23, 2017

quero dizer-te...

AUSÊNCIA


" Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, ...
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto, São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me mais de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me doí. "



Nuno Júdice


Não...



Compreender não é sentir...
"Muito se fala e muito se escreve acerca da empatia, e eu própria me questiono porque também o faço, aqui e agora.
Talvez o faça porque a empatia esteja na base do laço social, da compreensão e compaixão pelo semelhante, que a cultivar, nos enche de esperança de um futuro melhor. Mas talvez o faça, também, por razões egoístas, para evitar cair no engano de julgar que se a minha emoção faz impressão no outro, e se gera a partir daí um contágio emo...cional, a denominada simpatia, eu fui compreendia, e ele sente o mesmo que eu sinto, como se tivesse vivido ou estivesse a viver a minha situação. Sente empatia por mim.
Em suma, posso iludir-me, se julgar que emocionar-se com o meu relato, coloca-o a habitar o meu mundo emocional, ou seja, “É como eu”.
A empatia de acordo com Boris Cyrulnik em, ”Do sexto sentido”, é então, uma construção em duas etapas “compreendo o que você sente”, mas que ainda pode dar azo a não tomar o meu lugar, serve de base para uma emoção profunda, a um sentimento “compreendo o que você compreende”, que permite ver o mundo com os meus olhos, o que implica ter sentido essas experiências no passado, e ficar comigo, por que a empatia também se faz se se ousar deixar correr a alegria da comunhão.
Podemos então admitir, que é a linha da empatia na qual todos nós nos situamos, compreender o outro, que não é uma tarefa fácil, mas possível para os psicopatas, até à emoção profunda, o sentimento, que não está ao alcance destes, porque não tiveram a vivência emocional. "


Cristina Simões - psicóloga
in incalculável imperfeição

sábado, agosto 19, 2017

PERDÃO...


Perdão PERDÃO perdão PERDÃO


[ Sentara-se à soleira da porta. Sentira-se tão cansada. O tempo passava como se fosse irreal. Pusera-se a tricotar um pequeno cachecol com cachos de uvas penduradas. Tricotar, permitia-lhe meditar. Entrava em ressonância com qualquer coisa desconhecida, e sempre, tão íntima. Por vezes um medo lhe invadia a mente... era o desconhecido, esse que habita à porta de nós mesmos e que está sempre espreitando os nossos olhos.
 Nesses momentos de profunda ''tricotagem'', há um voo de passagem que  chega e quase sempre  incomoda. É preciso estarmos preparados e, a maioria das vezes, nunca estamos. No reino da mente, há milhares de discursos, de invasões, ou, de vozes. Ela é como um comboio sobre linhas, contínuo é o seu movimento... diria-se que, a mente,  sofre de ''doença crónica do pensar''! Quanto mais a reprimimos, mais ela ladra... a sua natureza, é de criar cada vez mais pensamentos e gerar todas as formas de emoção!

Nesse dia, mal sentara-se e começara a tricotar... um pensamento saíra voando do fundo da Mente e logo, se agregara à emoção, criando uma vibração sentida.  Dissera para si mesma: '' e se alguém, ainda vivo, nesta terra esteja amando-a em silencio? Portanto, sofrendo por isso.''...  Não um amor de família, de amizade... e sim, um amor no sentido de relacionamento afectivo - amoroso. 

Continuara a dizer para si mesma, ''e se alguém, nesta terra à beira-mar plantada, estiver amando-me em segredo, por tantas razões e por isso, manter-se em silencio, por outras tantas razões? Oh que dor mais insuportável!!! Se existes, oh Alma, que me amas assim tanto... quero pedir-te perdão PERDÃO por me amares assim tão silenciosamente!! Só de pensar nisso, dói-me toda a carne do corpo... e um peso toma-me a alma!! Perdoa-me PERDOA-ME a carga desse amor que carregas por mim e que eu não sei.
Amar em silencio, sem ser correspondido, ou poder confessar tal amor, deve ser um sofrimento tremendo, uma solidão sem fundo... como são os sofrimentos de quem ama e deixou de ser amado!!! 


O Amor entre os Humanos, em especial os afectivos-amorosos, são um terreno fértil de desencontros e encontros e, o palco de experiências dolorosas.
 
Criatura, oh criatura, PERDOA-ME esse sofrimento que te causo na solidão de não poderes abrir a tua boca... Não gostaria de amar alguém em silencio como tu, porque não suportaria ter o coração preso sem uma resposta. Não importa quem sejas, onde estejas... PERDOA-ME o que te faço sentir!!! PERDOA-ME se sentes dor. PERDOA-ME!!!????

Uma Alma não amada, que não se sente amada, é uma alma presa... PERDOA-ME!!! POR FAVOR, PERDOA-ME. Ajuda-me a abrir também o meu coração ao perdão de saber  perdoar-te e perdoar-me e perdoar os desígnios indiscretos da vida!!

No entanto, se o Amor que sentes por mim, é INSPIRAÇÃO e VIDA... abençoada é a vida que te ilumina... porque esse Amor liberta-te e liberta-me!! 

Se alguém que também, eu tivesse deixado, e continue a amar-me com o desejo de ainda ter-me, quando já não amo e não consegue desapegar...  também peço PERDÃO... todo o PERDÃO do Universo, e vou mais longe...  PEÇO às FORÇAS  MAIORES DA VIDA, que conduzam ao seu caminho, alguém capaz de neutralizar e transformar todo o amor dessa pessoa por mim, e que a deixe fluir num novo encontro de amor... mais pleno que aquele que viveu comigo. Assim, poderá também libertar a minha própria alma e amar também mais!!!  Porque as almas, precisam de se libertar para serem novamente amadas e amarem... só assim, a Humanidade caminhará para a evolução!!! PERDOEM-ME... por favor?? POR FAVOR, PERDOEM-ME???!!!...''

Quando parara de tricotar, já o sol havia descido no céu. Os pensamentos surreais deixaram-na surpresa... mas a maior surpresa, foi constar que todo o cachecol estava escrito com as palavras PERDÃO... cada uva tinha uma palavra com PERDOA-ME. ]



NãoSouEuéaOutra in « Aquilo que desconhecemos em nós, o PERDÃO. »
03/06/13 21:58

não sei que vidas vivi



«Não sei que Vidas vivi. Senti-me sempre um Palhaço. Como se uma Legião Oculta tivesse tido a ousadia de comandar todos os sectores que me pertenciam à nascença. Um dia, veio um Turbilhão, que se transformou num Holocausto e levou o que restava do Palhaço. Quebrou todos os risos, todos os sonhos, e o pior, a inocência que fazia mover esta engrenagem que me levava pela mão adentro em direcção ao mundo. Onde todos os lugares me pertenciam a bem ou a mal.

Essa podridão, quebrou todos os códigos para que pudesse cheirar o seu Fel, e como tal, viesse a feder tanto, que nenhum congénere se aproximasse desta Criatura. Levando, então, essa marca, insígnia prosaica que denunciava o castigo; essa a qual não deveria ter sido submetida, por não me pertencer.

O resto do Palhaço que me habitava, vive vomitando os vermes. Coça noite adentro, cujo abismo é feito de pesadelos. Pesadelos que viajam até ao reino interdito aos comuns dos mortais. Posto que, outorgaram-me um destino vil, ácido e contra-corrente.

Hoje em dia, chamam-me de Palhaço Negro. Pareço um pedaço de carvão. 

Talvez, a Fénix, seja condescendente e me dê a Vida, mais uma vez.»

NãoSouEuéaOutra in «Caderno Escorpiónico»